Ensaio 1


Planejamento:
ENSAIO 1
05/09
1
Aquecimento/preparação vocal/corporal (ênfase na voz) (30 min.)
1.1
Caminhar pelo espaço. Espreguiçar-se. Movimentar cada parte do corpo. Diferentes formas de caminhada. Diferentes velocidades. Lubrificar cordas vocais. Sons de Mmm, Brr, Trrr, etc, tons graves e agudos. Vogais. Consoantes. Projetar voz para diferentes pontos. Etc.
2
Exercícios ator-rapsodo (50 min.)
2.1
Sentados em círculo, ler uma frase do texto até o ponto, endereçando-a claramente para o ator ao lado. Este a recebe e lê a frase seguinte, passando-a para o próximo, e assim por diante. (Exercitar a precisão no direcionamento do texto e apurar a atitude de ouvir, percebendo um tempo interno entre esse ato e o de falar logo depois)
2.2
Mesmo encaminhamento, com a interrupção feita em todo sinal de pontuação. (Auxiliar o ator a perceber divisões no pensamento e cadência, ritmo de fala)
2.3
Interrupção feita por pausas de intenção, a critério do ator. (Perceber com maior clareza a estrutura do pensamento narrativo que engendrou o texto. A fluência interativa que se estabelece entre os atores é fundamental para a instalação do narrador coletivo desejado)
2.4
Interrupção em cada palavra. (Possibilitar a percepção do valor sonoro e de significado de cada palavra, mostrando seu caráter imprescindível, seja ela uma simples preposição. Reforçar a fluência narrativa na passagem da voz entre os atores)
2.5
Passar a frase um para o outro, cantando-a numa melodia improvisada.
2.6
Frase em tom sussurrado, com o sussurro audível.
2.7
Outras variações.
3
Avaliação e considerações finais (10 min.)
Considerações:
No primeiro ensaio, começamos a realizar alguns exercícios retirados/adaptados da tese de Nara Keiserman sobre o ator rapsodo, a fim de possibilitar aos atores e atrizes uma primeira experimentação com o teatro narrativo. Selecionei para esse primeiro momento exercícios mais voltados à questão vocal. 
O ensaio iniciou com um aquecimento, que seguiu mais ou menos o que eu havia previsto no planejamento, com algumas variações que fui "inventando" na hora.
Os exercícios de narração foram feitos com um trecho do texto que estou preparando para a peça:
Há não muito tempo atrás, numa ilha lá do outro lado do oceano, nasceu um menino. Porque tinha a pele branca como a neve e porque fez um elaborado cálculo com os dedinhos antes de soltar o primeiro choro de vida nova, seus pais o chamaram Alan Turing. Era um menino calado, desajeitado, solitário. Esquisito, diriam alguns. Entretanto , desde cedo demonstrou-se dotado de uma extraordinária inteligência. Um gênio, diriam alguns. Um dia esse menino iria usar toda a sua genialidade para ajudar os reis da ilha onde vivia a vencerem uma terrível guerra que estavam travando contra um homem muito muito mau. Um homem de coração murcho e sorriso enferrujado que não conseguia entender que a beleza não existe somente nas peles brancas como a neve e que achava uma barbaridade admitir que o beijo de amor que desperta a princesinha adormecida poderia vir, não somente de um príncipe, mas também de uma outra princesa. O menino ficava muito triste com as ideias desse homem mau e ficava mais triste ainda por saber que até mesmo os reis de sua ilha também não gostavam muito dessa história de príncipe com príncipe e princesa com princesa. E se vem uma bruxa, pensava o menino, disfarçada de velha boazinha, pensava o menino, e me dá uma maçã envenenada, pensava o menino, e eu a como e vem os anõezinhos e encontram meu corpo inanimado, pensava o menino, e me colocam no caixão de vidro e eu fico esperando o príncipe que vai vir me despertar e, por culpa dos homens maus, o príncipe não vem? Pensava o menino. O menino pensava muito. Pensava tanto e tão calculadamente e com tantos gráficos mentais e funções e continhas e se isso é 3 e aquele é 4 eu somo aquele outro e elevo ao quadrado e multiplico pela progressão aritmética do axioma de a+b por x ao infinito e etc etc, que as vezes ficava em dúvida se era um menino mesmo ou uma máquina. Não que as máquinas pudessem pensar, mas ele acreditava que ensinando-as com carinho e dedicação e paciência de bom pedagogo, elas aprenderiam. As máquinas também precisam de amor, dizia. E não só dizia, mas também as amava. E amava não só as máquinas, mas também a matemática e a lógica e a física e a astronomia e a criptologia e até mesmo algumas pessoas. E todos os dias, sentado na cama, antes de entrar em modo de hibernação, comia uma maçã. Meninos-máquinas também precisam se alimentar, pensava. E depois da maçã comida, continuava pensando, pensando e pensando, até tudo virar descanso de tela, com imagens dinâmicas de príncipes encantados, que vinham lhe entregar mensagens de amor criptografadas, escritas ternamente em código binário.
Os exercícios trouxeram bons resultados e creio que cumpriram bem sua função de promover uma primeira aproximação entre a equipe e aquilo que eu compreendi da proposta de Nara Keiserman para um teatro rapsódico. Alguns momento particularmente ficaram bem agradáveis/divertidos de se ver/ouvir, como o que se pede para que passem o texto cantando.Algumas pequenas mudanças se fizeram necessárias em relação ao planejamento: 
  1. Optei por deixar atores e atrizes de pé, em vez de sentados e, a fim de instigá-los a gastar mais energia na fala, pedi para que cada um dos 4 ficasse numa das pontas do tablado e que falassem alto o suficiente para que todos pudessem se ouvir bem.
  2. Inverti a ordem dos pontos 2.3 e 2.4, por pensar que a dissecação do texto em palavra por palavra iria proporcionar uma maior apropriação do mesmo, facilitando assim a tarefa de dividi-lo a critério próprio.
  3. Em "outras variações", achei necessário propor uma leitura mais rápida e com mais gasto de energia, então solicitei que lessem gritando e o mais rápido que pudessem.

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"Turing acredita que as máquinas pensam

Turing vai para a cama com homens

Portanto as máquinas não podem pensar."